Por Alexandre Schwartsman1 There are decades when nothing happens, and there are weeks when decades happen (attributed to Lenin). Abril consolidou uma mudança importante no ambiente econômico global. Até poucas semanas atrás, o cenário predominante nos mercados internacionais ainda partia da hipótese de desaceleração gradual da economia americana, inflação convergindo lentamente para a meta e início de flexibilização monetária mais disseminada ao longo de 2026. Hoje, embora nenhum desses elementos tenha desaparecido por completo, tornou-se evidente que o processo será bem menos linear do que se imaginava. O principal vetor desta mudança continua sendo o conflito no Oriente Médio. A combinação entre interrupções logísticas, aumento do risco geopolítico e incertezas sobre oferta futura de petróleo elevou os preços de energia de forma relevante e reacendeu discussões que pareciam restritas aos livros de história econômica. Não se trata, evidentemente, de repetição mecânica dos choques dos anos 1970. A economia global é menos intensiva em petróleo do que naquele período e os bancos centrais desfrutam de credibilidade incomparavelmente superior. Ainda assim, choques negativos de oferta continuam produzindo efeitos familiares: menor crescimento e inflação mais elevada. Os efeitos sobre os mercados financeiros foram rápidos. A precificação de cortes de juros pelo Federal Reserve diminuiu de forma expressiva e, em alguns momentos, voltou-se inclusive à possibilidade de elevação adicional das taxas. Embora o Fed continue enfatizando medidas de núcleo, a persistência de preços mais elevados de energia tende a contaminar cadeias produtivas, custos de transporte e expectativas inflacionárias. Ao mesmo tempo, observou-se fortalecimento do dólar frente às principais moedas. Parte desse movimento reflete a busca usual por segurança em momentos de maior aversão ao risco. Outra parte parece decorrer da percepção de que, apesar dos problemas políticos e institucionais recentes nos Estados Unidos, a economia americana ainda oferece combinação de profundidade financeira e capacidade de absorção de choques externos. Na Zona do Euro, mais dependente de importações de energia, o impacto potencialmente é mais severo. O mercado passou a incorporar trajetória monetária menos acomodatícia, mesmo diante da perspectiva de desaceleração da atividade. Para economias emergentes, o quadro tornou-se mais complexo. Taxas de juros mais altas nos países desenvolvidos, fortalecimento do dólar e maior volatilidade global tendem historicamente a reduzir fluxos de capitais e pressionar moedas locais. Ainda assim, o impacto não é homogêneo. No caso brasileiro, o choque produz efeitos contraditórios. Por um lado, o aumento do preço do petróleo melhora os termos de troca. O país permanece exportador líquido da commodity e acumula superávit de US$ 40 bilhões na balança de petróleo. Por outro lado, continuamos dependentes da importação de derivados, particularmente diesel. Em tal contexto, tentativas prolongadas de dissociar preços domésticos de preços internacionais costumam produzir escassez, subsídios implícitos ou deterioração financeira das empresas envolvidas. A aritmética pode ser desagradável, mas permanece sendo aritmética. A consequência mais imediata apareceu nas projeções de inflação. As medidas correntes aceleraram, assim como expectativas para horizontes mais longos. A Ata do Copom divulgada recentemente reconheceu explicitamente “desancoragem adicional” das expectativas, em particular para 2028, além de enfatizar preocupação com possíveis efeitos de segunda ordem derivados do choque de petróleo. Ainda assim, o BC decidiu prosseguir o processo de “calibração” da política monetária, reduzindo novamente a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. O Comitê claramente deseja evitar a percepção de que tenha iniciado ciclo convencional de flexibilização monetária. A comunicação do Banco Central sugere leitura bastante específica do cenário. De um lado, reconhece piora relevante do ambiente inflacionário. De outro, entende que a política monetária restritiva já produziu efeitos perceptíveis sobre a atividade econômica. A desaceleração do crédito, particularmente das linhas livres, assim como a perda de fôlego dos componentes mais cíclicos do PIB, são interpretadas como evidências de transmissão monetária em curso. O problema é que a desinflação observada até aqui parece ter dependido mais de fatores externos — apreciação cambial e queda dos preços de bens comercializáveis — do que propriamente de redução significativa do hiato do produto. Serviços intensivos em trabalho continuam registrando comportamento incompatível com inflação na meta, refletindo mercado de trabalho ainda apertado e crescimento salarial acima da produtividade. Nossas estimativas continuam sugerindo crescimento potencial relativamente modesto, ao redor de 1% ao ano. Caso esta avaliação esteja correta, a economia brasileira pode permanecer operando próxima ao pleno emprego mesmo em cenário de expansão moderada. Em tais circunstâncias, a contribuição da atividade doméstica para a convergência inflacionária tende a ser limitada. Isso torna a taxa de câmbio ainda mais importante. A valorização do real observada no início do ano ajudou significativamente o processo desinflacionário. O fortalecimento da moeda tem ajudado o BC neste contexto de agravamento das pressões inflacionárias e pode ser um fator crucial para colaborar para a continuidade do ciclo de calibração, hoje sob severo escrutínio do mercado de renda fixa. Por outro lado, o ambiente político doméstico adiciona ruídos adicionais. A aproximação do calendário eleitoral aumenta incentivos para políticas expansionistas e reduz o apetite para medidas de ajuste fiscal estrutural. Isto se torna ainda mais premente face às duras derrotas sofridas pelo governo no Congresso, em particular no Senado. Em síntese, abril marcou a transição para ambiente econômico significativamente menos confortável. O Banco Central ainda parece disposto a continuar, lentamente, o processo de redução da Selic, mas a margem para flexibilização diminuiu. O cenário internacional tornou-se mais adverso, a inflação voltou a acelerar e as expectativas deixaram de melhorar. que não se trata ainda de abandono completo do cenário benigno desenhado no começo do ano. Mas o mercado passou a compreender a travessia será mais longa, mais volátil e provavelmente mais cara do que se imaginava poucas semanas atrás. Em momentos assim, entusiasmo costuma ser ativo de retorno duvidoso.

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