Por Alexandre Schwartsman
War, what is it good for?
A eclosão de novo conflito militar, agora na volátil região do Oriente Médio, aumentou consideravelmente a incerteza, que já não era pouca. Em ação conjunta, os EUA e Israel iniciaram forte bombardeio ao Irã, decapitando boa parte da liderança da República Islâmica.
Em retaliação, o Irã não apenas lançou mísseis e drones contra Israel e bases norte-americanas na região, mas, crucialmente, também alvejou países árabes no Golfo Pérsico e tornou extraordinariamente difícil a navegação no Estreito de Ormuz, por onde escoa praticamente toda a produção de óleo e gás da região.
O resultado foi considerável elevação dos preços de ambas as mercadorias, ainda mais forte no caso do gás, com repercussões globais. Ao mesmo tempo, no mercado de moedas, houve revalorização do dólar, na contramão do movimento dos meses precedentes.
Ainda que o conflito se encontre em estágio inicial, os mercados parecem reagir de maneira relativamente previsível a choques geopolíticos desta natureza. A elevação do preço do petróleo e do gás natural implica em deterioração dos termos de troca para países importadores líquidos de energia, ao mesmo tempo em que tende a pressionar as taxas de inflação nas economias avançadas.
Neste contexto, ativos considerados mais seguros voltaram a ganhar espaço nos portfólios globais. O dólar, que vinha perdendo valor relativamente às moedas de países desenvolvidos ao longo dos últimos meses, recuperou parte do terreno perdido. O movimento foi acompanhado por valorização de ativos tradicionalmente associados a períodos de aversão ao risco, como ouro e títulos do Tesouro norte-americano de curto prazo.
Vale notar que tal dinâmica ocorre após um período relativamente prolongado de questionamentos quanto à qualidade institucional e à condução da política econômica nos EUA. Em outras palavras, o fortalecimento recente do dólar não parece resultar de melhora estrutural da percepção sobre os ativos americanos, mas sim de movimento típico de busca por liquidez em momentos de elevada incerteza.
Para as autoridades monetárias, o choque traz complicações adicionais. O aumento do preço da energia tende a elevar a inflação no curto prazo, ao mesmo tempo em que reduz o poder de compra das famílias e, portanto, atua como freio sobre a atividade econômica. Trata-se, em essência, de um choque clássico de oferta negativa.Em tais circunstâncias, bancos centrais enfrentam um dilema conhecido. Reagir ao aumento da inflação com política monetária mais restritiva pode aprofundar a desaceleração da atividade; ignorar o choque, por sua vez, pode permitir que pressões inflacionárias contaminem expectativas e reajustes salariais.
Até o momento, os mercados parecem apostar que o Federal Reserve manterá postura relativamente cautelosa. As probabilidades implícitas nos contratos de juros ainda indicam espaço para cortes modestos ao longo do ano, embora com menor convicção do que há poucas semanas. Afinal de contas, os EUA se tornaram exportadores líquidos de petróleo e, como tal, não sofrem os mesmos impactos observados no passado.

No caso europeu, o problema é ainda mais evidente. A dependência energética da região permanece significativa, de forma que o aumento do preço do gás natural tende a produzir impacto mais pronunciado sobre inflação e atividade. Não surpreende, portanto, que o euro tenha perdido valor frente ao dólar desde o início das hostilidades.
Para economias emergentes, o quadro é ambíguo. Países exportadores de commodities energéticas podem se beneficiar da elevação dos preços internacionais, enquanto importadores líquidos enfrentam deterioração das contas externas. Em qualquer caso, a tendência de fortalecimento do dólar costuma implicar condições financeiras mais apertadas.
No caso brasileiro, o impacto inicial do conflito se fez sentir sobretudo por meio da taxa de câmbio. Após meses de apreciação relativamente consistente, o real devolveu parte dos ganhos recentes, refletindo tanto o movimento global de fortalecimento do dólar quanto a maior aversão ao risco nos mercados internacionais.
Caso tal tendência se prolongue, o efeito sobre a inflação doméstica pode se mostrar relevante. A experiência recente sugere que a taxa de câmbio segue exercendo influência significativa sobre preços de bens industrializados e alimentos, ainda que o impacto sobre serviços seja mais limitado.
Do ponto de vista da política monetária, o choque surge em momento particularmente delicado. O Banco Central vinha sinalizando o início do ciclo de redução da Selic nas próximas reuniões, em linha com a desaceleração recente da inflação e com a apreciação cambial observada desde o final do ano passado.
Uma reversão mais pronunciada do câmbio poderia, contudo, limitar o espaço para tal movimento. Ainda que choques geopolíticos desta natureza frequentemente se revelem temporários, a incerteza associada à evolução do conflito sugere cautela adicional por parte das autoridades monetárias.
É bem verdade que o horizonte relevante para as decisões do Copom compreende agora os 12 meses até setembro de 2027, período mais que suficiente para que eventuais aumentos de preço de combustíveis e impactos da taxa de câmbio se dissipem.
Como de costume, a trajetória da política monetária doméstica continuará dependendo, em larga medida, do comportamento do cenário externo. Em particular, da evolução do conflito no Oriente Médio e de seus efeitos sobre os mercados de energia, as moedas globais e, por consequência, o dólar.
Talvez seja cedo para avaliar se estamos diante de uma mudança duradoura no ambiente financeiro internacional ou apenas de mais um episódio de volatilidade geopolítica. Mas, como tantas vezes ocorre, os desdobramentos da política internacional voltam a exercer influência decisiva sobre o rumo da economia.
Ainda que não esperemos que o BC recue da decisão anunciada de iniciar o ciclo de redução da Selic já na reunião do Copom em março, esperamos que a comunicação da autoridade monetária dê destaque ao aumento da incerteza geopolítica e sublinhe potenciais dificuldades à frente.
A duração do conflito é a principal variável que precisará ser monitorada nas próximas semanas.

