Vereda
Por Alexandre Schwartsman1

O desenvolvimento mais inesperado dos mercados financeiros globais é a queda recente do dólar, que agora se aproxima de US$ 1,10 contra o euro, comparado a valores pouco abaixo de US$ 1,04/€ pouco antes da posse de Donald Trump.

Já se sabia da preferência do novo governo americano por tarifas de importação, aplicadas às exportações de grandes parceiros comerciais, no caso Canadá, México, União Europeia e China. Todavia, esperava-se (e eu me incluo nisto) que a imposição de taxação sobre importados fosse levar a certo fortalecimento do dólar.

Em parte porque a menor demanda por importados equivale a redução da demanda por moeda estrangeira (portanto valorização do dólar) e também porque (e principalmente) a elevação dos preços de produtos importados (e de seus concorrentes domésticos) dificultaria adicionalmente a convergência da inflação à meta de 2%, implicando juros mais altos do que na ausência de tarifas, fenômeno que também contribuiria para o dólar mais forte.

Creio, a bem da verdade, que tais desenvolvimentos acabarão por se materializar; todavia, parece haver outras forças apontando na direção oposta, também relacionadas a tarifas (e outros fatores), mas ligadas a problemas ainda mais sérios do que a política comercial propriamente dita.

Acostumamo-nos nos últimos 80 anos com um “mundo baseado em regras” (rules based world). Ainda que sujeitas a alterações durante este extenso período, as instituições de Bretton Woods, dentre as quais o antigo GATT, hoje OMC, limitavam em algum grau as políticas mais discricionárias dos países na arena internacional.

Não pretendo, é claro, fingir que tudo era cor-de-rosa. Nem todas as regras foram cumpridas (por exemplo, a flutuação do dólar contra o ouro em 1972), mas, ainda que de maneira imperfeita, havia a noção de certos limites ao posicionamento econômico (e geopolítico) dos diversos países.

O novo governo Trump está rapidamente enterrando estas instituições. Idas e vindas de tarifas, direcionadas até mais a países aliados do que a rivais, propostas que parecem retiradas do manual de um governante do século XIX (anexação de territórios, proteção em troca de direitos de exploração de recursos naturais), desprezo por regras etc.

Mercados financeiros têm reagido mal, em particular a bolsa americana (não os títulos do governo, aparentemente ainda percebidos como “porto seguro”), mas a raiz do problema não parece ser financeira, como, por exemplo, em 2008. Ao contrário, a origem parece vir do setor “real” da economia.

O motivo seria o grau de incerteza que permeia a postura do governo americano. Decisões sobre cadeias de suprimentos, investimentos, desenvolvimento de produtos são paralisadas enquanto o cenário de política econômica permanece opaco.

O resultado disto é o receio de desaceleração econômica e, com ele, o risco de recessão. Segundo o Google Trends houve elevação considerável das sobre “recessão”, concentradas nos EUA, assim como aumento de 33 vezes na pergunta “o governo Trump pode causar uma recessão”?

A bolsa americana, em oposição à brasileira (em que há participação desproporcional de commodities), representa de forma mais justa a economia dos EUA. Receios sobre lucros num cenário de desaceleração reduzem a avaliação das empresas, afundando os índices, que – no momento em que escrevo – se encontram nos mínimos de seis meses, desempenho que contrasta com o observado nos primeiros dias dos governos americanos mais recentes, inclusive Trump em 2016.

Embora seja difícil prever desenvolvimentos específicos, o tema geral parece ser claro. A globalização está em retirada, liderada pelo país que mais havia se esforçado para seu sucesso nos anos que se sucederam a queda do Muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética.

Assim, os ganhos advindos daquele processo devem ser, ao menos em parte, revertidos. Menores volumes de comércio, trazendo de volta atividades antes desempenhadas por países mais pobres, devem impactar negativamente produtividade e custos, portanto lucros.

Incertezas também não ajudam do ponto de vista financeiro. Além das bolsas, os spreads de bônus corporativos (em particular “junk bonds”, aqueles abaixo do grau de investimento) também têm subido, atingido os níveis mais altos dos últimos 6 meses. É bom que se diga, não falamos de pânico financeiro, nos moldes de 2008, ou mesmo durante a pandemia, mas de piora generalizada nas condições financeiras.

Neste contexto, apenas os títulos públicos norte-americanos parecem oferecer alguma espécie de segurança, mas, curiosamente, não foram acompanhados desta vez pelo fortalecimento do dólar, o que levanta a suspeita que se trata de movimentos de redirecionamento de portfólios dentro das fronteiras, e não por parte de investidores estrangeiros.

Não é um ambiente favorável à tomada de riscos.

Já o Brasil, ainda que relativamente pouco afetado pela política comercial americana, nos parece algo mais vulnerável no que se refere a fluxos de capitais.

O déficit em conta corrente se elevou de 1% para 3% do PIB dos 12 meses terminados em janeiro de 2024 para período similar até janeiro de 2025, requerendo novos ingressos de capitais num quadro de redução da taxa de poupança doméstica.

A dinâmica de dívida aponta para nova elevação, não apenas em 2025, mas num horizonte de vários anos, dado que o resultado primário sequer é positivo, muito menos próximo dos valores requeridos para estabilizar a dívida pública.

Não obstante o desempenho positivo da moeda a partir de meados de janeiro, a verdade é que o real deve seguir pressionado, ainda mais porque a administração parece ter optado pelo caminho de menor resistência até as eleições.

Isto quer dizer que medidas de austeridade fiscal permanecem fora do radar, deixando como alternativa de “controle” da inflação apenas possíveis interferências na formação de preços, estratégia várias vezes tentada, mais recentemente no período 2013-14, e sempre fracassada.

O mundo se tornou um lugar perigoso.

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